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"Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado."
E eu ouvi a canção proibida, e ela vinha de uma pedra bem no chão. E eu me abaixei mais e mais, e a terra me engoliu e eu me senti antiga e medieval, presa num vestido longo demais, pesado demais, bonito demais. Quando eu vi, oh deus, eu era uma princesa e acenave de uma janela alta, alta, alta, no castelo mais grande de tudos! E haviam bandeirolas tremulando no alto das torres, e meu lenço azul, azul claro infinito, tremulava da janelinha. "Salve-me!", eu gritava, um pouco acenando na janela, um pouco me debatendo junto à porta, empurrando, esmurrando. O vestido pesado demais, me impedia de me mover como eu gostaria, mas eu consegui derrubar a porta. No corredor escuro, o vestido longo demais me impedia de correr, e eu já ouvia passos atrás de mim! Oh, não! E o pior: Quando eu finalmente desci as escadarias, e saí no salão superlotado, o vestido bonito demais chamava tanta atenção que eu sabia que todos que me olhavam, sabiam quem eu era! Tropeçando e correndo, eu saí do salão e cheguei num jardim, e havia mais gente, e todos me reconheceriam e me prenderiam novamente eu usaria aquele vestido para todo-o-sempre naquela torre! Sem pensar duas vezes, rasguei aquela roupa pesada, com dificuldade, machucando os dedos e arranhando a pele. Quando finalmente me livrei daquele tecido todo, ouvi uma voz.. uma música... algo! Corri e corri pelos campos, e a voz vinha do céu, e não era Deus. Era eu! Caí nua no lago gelado e afundei, e nadei, e conheci os pexes mais belos e as sereias mais encantadoras. No fundo duma caverna de conchinhas de todas as cores, encontrei o corpo gelado de uma garota, e a chacoalhei, e a levei à superficia, mas ela não respirava... e era tão bela com as flores em todos os recantos do seu corpo, e coroas de margaridas enroladas nos seus cabelos.. e reparando bem... ERA EU! Dei um grito subaquatico e acordei, caída no chão, o rosto junto à pedra, que ainda cantava, sussurrando baixinho. Levantei de um salto e saí correndo pra um lugar seguro, e a voz no céu continuava, e a pedra continuava, e meus passos se arrastavam, mas eu não queria olhar minha roupa. Vai que eu estivesse com o vestido ainda?